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20 de Outubro de 2017

A nobre advocacia dos iniciantes

As impressões de uma jovem advogada.

Amanda Stallmach, Advogado
Publicado por Amanda Stallmach
há 5 meses

A nobre advocacia dos iniciantes

Bem se sabe que o marketing jurídico, mesmo com as novas tecnologias, tem sua grande força na autopromoção do advogado e na sua relação com o cliente. A regra é simples: trabalhe duro e se relacione. É Batata!

Contudo, a regra tem se demonstrado mais inaplicável do que poderia ser possível. Ora, o que haveria, pois, de tão completo numa arma de promoção legítima e tão natural como essa, milagrosamente não vedada pelo código de ética?

Apesar da contradição, parei para refletir sobre algumas coisas que, desde do início dos meus estudos, vivenciei e vivencio como advogada com grande frustração.

Afastada a generalização falo, com cautela, das situações mais frequentes e rotineiras. Respeito meus colegas, sejam mais novos ou iniciantes, do que me coloco em parte de tudo o que exponho.

Corriqueiramente, a frase padrão verbalizada por muitos advogados mais velhos e experientes diz "Esse é advogado novo, foi tranquilo" ou "o número da OAB dele é acima de x". Não apenas os advogados, mas também muitos servidores públicos e, inclusive, Juízes, tratam com muito desprezo o novo advogado.

Tais afirmações nos levam (sim, inclusive a mim) a acreditar que os iniciantes da profissão são péssimos profissionais.

É com essa falsa realidade que muitos Escritórios de Advocacia escravizam seus associados com suas baixas remunerações. Também é com isso que constantemente nos enganamos temendo ser inferiores aos colegas de profissão mais experientes.

Mas, para a nossa alegria, a realidade tem se mostrado substancialmente diferente.

O mais irônico é que não é nem difícil de entender a controvérsia. Bastou a regra principal (e simples, reitera-se) ser violada para fazer, cada vez mais, com que os clientes dos velhos advogados os deixem para procurar nos novos causídicos.

Ah, como eu tenho provado desse mel! Eu realmente seria mais feliz se a situação não fosse tão trágica. O motivo principal da procura dos clientes se resume a: "o meu advogado não quis passar o número do processo" "eu não confio nele" "eu queria resolver a situação sem processo, mas ele não".

Esqueceram-se que a causa do cliente é importante.

Esqueceram de conversar com o seu cliente.

Esqueceram da regra simples do marketing jurídico.

Esqueceram também das disposições do Código de ética.

Eis que o jogo virou. E sabe por que, caro colega? Esses mesmos clientes estão dispostos a pagar mais ao novo advogado, que dá a devida atenção ao caso, do que a você, que buscava tão somente seus honorários da ação que, por vezes, sequer precisava ser ajuizada para solucionar o caso.

Obviamente que a experiência conta muito, e não estou a falar de todos os advogados experientes. Falo, entretanto, daqueles que se utilizam dela para desqualificar colegas mais novos.

Ser iniciante na Advocacia não é só sinônimo de desconfianças e juvenilidade. Pelo contrário: muitas vezes advogados iniciantes saem na frente dos mais antigos, pela rapidez e praticidade, já que muitos advogados antigos não se adaptaram às mudanças do mundo jurídico e operacionalização do Direito.

Neste cenário, oportuno se torna dizer que, independente do "tempo de serviço", é preciso ser um profissional competente.

O posicionamento do advogado demonstra como atuará no feito, seja de forma judicial ou extrajudicial. Sua honestidade, valorização e dignidade estão a frente do jogo! Ser digno da confiança de todos e, principalmente, dos seus clientes é um passo que não se pode escolher dar.

Junto ao posicionamento, vem a necessidade de transparência (ainda mais diante do nosso cenário político) a fim de que possamos desempenhar nossas funções com clareza, enxergando as coisas como os clientes as vêm.

"Um processo judicial é estressante, é chato e a situação piora bastante quando o cliente não entende nada do que está acontecendo porque o advogado dolosamente não lhe presta explicações".

Neste ponto, Harvey Specter (série "Suits") nos ensina sobre como realizar acordos é importante, rápido e eficaz. E essa característica em Harvey é verificada em praticamente todos os episódios da série.

O cenário jurídico da referida série é diferente, mas mesmo no Brasil (principalmente com o novo código de processo civil) a judicialização já deixou de ser o foco da advocacia.

"Acabou-se o tempo que advogado bom é aquele que sabe brigar num processo judicial. Saber processo é e sempre vai ser imprescindível na vida de um advogado, mas o “espírito do conflito” já não é mais valorizado".

Ora, a necessidade exposta só revela o quanto os velhos advogados, apesar da pompa, têm contrariado a regra para obter suas vantagens. Eu, advogada iniciante, não me contento com essa situação confrontante. E os clientes também não, faz tempo!

Resposta à situação tem sido a procura por advogados novos e capazes. Cerca de 50% dos meus clientes já tinham um advogado. E sabe qual tem sido a reação padrão dos nobres colegas? Recusar substabelecer. E erraram de novo!

Assim, de tudo o que tenho vivido, o meu maior anseio é atuar dignamente, preocupada em jamais ser como aqueles que hoje renunciam à essência de nossa função, violando a ética e promovendo o descaso.

A nobreza da nossa Advocacia iniciante está em lutar para livremente atuar, já que tem que vivenciar esse desrespeito ultrajado de preocupação, suportando o porre dos velhos advogados cansados!

Sim, eu sei que esse final do meu texto dissertativo parece curto demais. Mas é isso mesmo: eu não quero ser uma advogada tão medíocre. Há muito mais para se fazer com nossa profissão tão nobre. O jargão de "excelência nos serviços jurídicos", utilizado em diversos escritórios, já não é mais suficiente, dotô!

E sim: a experiência, muito embora tenha sua parte grandemente importante, não é suficiente sozinha também.

A sociedade pede mais do Advogado.

O cliente pede mais do Advogado.

O Advogado júnior pede mais do Sócio Advogado.

Isso não nos diz algo?

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141 Comentários

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Ser iniciante é difícil. Para mim que abri logo de cara um escritório, senti e sinto na pele a falta de confiança que alguns colegas e o questionamento de alguns clientes sobre minha pouca idade. Advogar é pra quem tem um viés de guerreiro, porque não há tempo para desânimos ou para pensar sobre "tal advogado tem mais experiência do que eu". Ser mais experiente, não significa ser melhor, só significa que ser mais astuto. continuar lendo

Concordo, Fernanda! Também abri escritório e, apesar das dificuldades, sei que foi a melhor decisão. Mas como você disse, temos de ser guerreiros. E se precisamos guerrear, vamos com tudo! Muito sucesso para você. continuar lendo

Dra. Amanda,

Agradeço a confecção desse texto. Estava precisando ler algo confortante.

Fiz um ano de escritório próprio, como autônomo, agora em março/17. Advogando sozinho.

Enfrento dificuldades diariamente, até mesmo pela experiência, mas nada me entusiasma mais do que ter a sensação de estar aprendendo e a cada dia que passa evoluindo mais um por cento.

Sou uma pessoa naturalmente teimosa, rs, e creio que teimosia se transformou em persistência para ensejar a coragem de advogar sozinho em inicio de carreira.

Peço a Deus sempre que ilumine meu coração em busca de justiça, pois creio que nasci pra isso, porque é o que me dá alegria de fazer, por mais que no final do mês não lucre quase nada.

Desejo-lhe sucesso!

Abraços,

Tiago Santos. continuar lendo

Que alegria ler sua postagem, Tiago. Também creio como você, que Deus quer mais de nós, como pessoas e profissionais. Siga firme e persistente, você não está sozinho. Somos iniciantes, apaixonados e fortes! Abraços continuar lendo

Persista drº Tiago! A luta sem dúvidas é árdua mas não será em vão. Todos os doutores que hoje são experientes um dia tiveram que começar.

Ismael Fernandes continuar lendo

É isso aí! Continue persistindo! Após a chuva vem a bonança! Vais chegar lá! continuar lendo

Infelizmente, tudo isso é uma verdade doutora!
Desde que ingressei no quadro da advocacia, venho provando esse gosto amargo da vida jurídica. Estou sendo obrigado a praticamente trabalhar sozinho, com ajuda da minha noiva que já é uma advogada experiente, mas que trabalha em um grande escritório. E como eu não tenho experiência, e por não querer me sujeitar a ser escravizado, estou guerreando com minhas próprias pernas.
Esse texto da senhora, me fez ver, que a batalha é árdua, mas com muito suor derramado, conseguirei meu espaço!
Parabéns pela iniciativa em nos trazer sua experiência. Forte abraço e sucesso a todos nós advogados iniciantes!! continuar lendo

Continuemos firmes, Júlio! Há mais grandeza nos nossos inícios honestos do que nos desfechos que falamos. Muito sucesso pra você também! continuar lendo

Excelente abordagem! Parabéns! Me identifiquei com as questões abordadas e com os demais comentários de pessoas que como eu iniciaram na carreira atuando sozinhas em seus próprios escritórios, vencendo não só na profissão diariamente mas também tendo que vencer os colegas e demais que olham para nós como figurantes do Direito por trás de recentes números de OAB... Já tive que me reafirmar como profissional enquanto levava um olhar de raio-X de um colega mais velho ou de um juiz quando seu assessor digitava na pauta o número da minha OAB, já quis ir para um escritório grande só para ficar invisível até adquirir "os anos de experiência" que gostariam que eu logo tivesse, já chorei profundamente por passar por muitas questões que eu discordava por não ter essa natureza tão bélica que infelizmente ainda predomina em muitos processos, mas em todas esses momentos difíceis me lembrei que Deus me chamou para ser advogada e para fazer diferença na vida das pessoas, colaborando para essa nova advocacia que vem surgindo (em grande parte devido aos novatos, que não se contentam com a mesmice que havia nas atuações profissionais) e muito me alegrou o advento das práticas consensuais para resolução de conflitos terem ganhado espaço no CPC/15 e tenho cada vez mais entendido que estamos vivendo novos tempos, graças a Deus, e assim poderemos mostrar que nosso trabalho diferenciado também tem o seu valor em nossa sociedade e o legado do que exercemos em nossa postura será muito melhor para a coletividade. Deus a abençoe em sua carreira e agradeço muito por compartilhar esse texto, a leitura foi muito abençoadora para mim nesta tarde. Um abraço! continuar lendo